Psicóloga explica sobre como podemos ajudar as crianças a viverem o luto

Um assunto difícil e delicado para muitas pessoas é a morte. Com a pandemia da Covid-19 e a proximidade da morte em muitas famílias, o tema se tornou mais presente para muitos pais, responsáveis e educadores de crianças. Mas como falar sobre essa questão com elas? Como explicar que alguém muito próximo não vai mais voltar? Como ajudá-las a viver o luto?

A psicóloga Mayana Okada, que trabalha com o tema na Psicologia, explica o que é o luto e sobre a necessidade de falar sobre esse assunto na infância. Falar da morte não é mórbido. Quando a gente fala da morte, a gente fala da vida. Falar da pessoa que morreu é falar do amor, de alguém que a gente ama muito, só que muitas vezes a gente não sabe como viver esse amor não tendo a pessoa por perto”, comenta. A psicóloga dá algumas orientações sobre como ajudar as crianças a viverem uma situação de perda. Confira a seguir a entrevista completa.

 

1 – Em geral, para todas as pessoas, perder alguém é difícil. Para as crianças, o luto é algo mais difícil de vivenciar? Por quê?

Não, é igual. Não existe luto mais difícil e luto menos difícil. Luto é luto. Então quando há uma perda de um ente querido, um animal de estimação ou até mesmo de uma expectativa, como um aniversário que era para ter sido feito e não foi feito, isso também é um luto. O luto é a dor de algo que não tem mais. O tanto que eu investi de amor, eu vou sofrer na mesma intensidade. Então não é mais difícil para uma criança vivenciar e não é menos difícil: é igual.

A criança vai ter alguns recursos do dia a dia que talvez o adulto não se permita mais ter. Por exemplo, a criança ela tem o brincar e no brincar ela expressa as dores e sentimentos. O que também diferencia é que talvez ela não tenha um vocabulário e uma compreensão como a do adulto para verbalizar o que ela está sentindo, mas ela sente.

A quantificação do sofrimento é desnecessária: há sofrimento, há luto, há pesar.

 

2 – Que situações e contextos podem tornar mais difícil a vivência do luto pelas crianças?

Quando o adulto não fala abertamente com a criança. O que é esse falar abertamente? Se houve a morte de um ente querido, não dizer que Fulano viajou, porque essa criança vai esperar. Se o avô, a avó forem hospitalizados, dizer que “Foi passar uns dias na casa da titia”, por exemplo, dificulta para a criança. Só o fato da criança saber que o avô e a avó estão hospitalizados, ela já começa a pensar na ausência dos avós, já começa a pensar na possibilidade de algo acontecer com os avós. Isso é importante para criança, faz parte do amadurecimento emocional dela saber que, quando nós vamos ao hospital, é porque nós não estamos bem. É necessário a criança passar por essas preocupações, é natural, é do ciclo da vida.

Hoje a gente quer poupar tanto as crianças da tristeza, até o próprio adulto quer se poupar da tristeza, que acabam adoecendo, pois não dão conta do seu próprio sofrimento. Esse percurso do sofrimento é onde o indivíduo, independentemente da idade, vai encontrar nele mesmo estratégias para enfrentar a sua dor e se conhecer a partir dela. Então quando eu digo para uma criança que os avós estão doentes, ela vai querer saber o que que eles têm, o que eles sentem, o que pode acontecer… É importante ela saber de todo esse percurso, porque se houver um óbito, ela já vai ter imaginado isso. Um luto que é muito difícil de imaginar, de passar, é quando a morte é repentina.

Quando eu aviso para criança que os avós estão doentes e vão para o hospital, ela já começa a imaginar na ausência dessa avó. Ela vai sofrer, mas o que eu posso fazer como adulto diante do sofrimento dessa criança? Eu posso acompanhar essa criança nesse sofrimento.

O que a gente costuma fazer: a gente diz “Não chora, eles já vão voltar”, “Não chora a gente vai passear, tá?”, e isso não é ajudar a criança. A gente quer substituir esse momento da dor por algo prazeroso, para inibir aquele processo de elaboração do que ela está sentindo.

Ajudar a criança percorrer esse processo do sofrimento é perguntar “O que você tá sentindo?”, “Vamos conversar sobre isso?”, “Que tal a gente fazer uma carta para o vovô e para a vovó, um desenho para a titia levar?”. Isso é ajudar a criança a passar por esse por esse período de dificuldade. Acompanhar a criança durante o momento de dificuldade, da dor, é uma maneira de contribuir para que ela tenha uma compreensão de tudo que está acontecendo.

É preciso estar atento e identificar os sinais no comportamento da criança para iniciar uma conversa, diz psicóloga.

3 – Nesse período de pandemia, infelizmente a morte se tornou mais presente. Precisamos falar sobre esse assunto com as crianças, mesmo que ela não tenha tido nenhuma morte de pessoa próxima? Que tipo de abordagem podemos fazer?

O termômetro para falar com a criança é a própria criança. Não adianta o adulto chegar e dizer “Precisamos conversar sobre a morte”. Não tem utilidade nenhuma para criança se ela não chamar o adulto para conversar sobre isso. E o que é esse “chamar para conversar”? É o comportamento. Visualizar o comportamento da criança: como ela fica quando a TV está ligada no noticiário, prestar atenção se ela expressa algo no desenho, na brincadeira dela. A criança se comunica de outra maneira, é uma outra linguagem: é com o corpo, com o brincar, com alguma mudança na rotina dela (alimentação, sono…). O adulto precisar estar atento e conhecer a sua criança.

É preciso conversar com a crianças sobre questões naturais da vida: uma planta morre, um animal morre. Eu já vivenciei uma situação no consultório em que uma mãe substituiu o peixe da criança que tinha morrido. Ela perdeu uma ótima oportunidade de conversar com a criança sobre a morte, ela preferiu evitar a dor da criança. Isso é muito arriscado, porque eu não estou preparando a criança para a frustração, a perda, o medo. E a perda e o luto acontecem em vários momentos do ciclo da vida. Em todos os marcos do desenvolvimento a gente passa por processos de luto simbólico, que são fechamentos de ciclos e início de um novo ciclo. Então quando a gente fala de luto, não é apenas a morte de um ente querido. E quanto mais a gente explica para criança que tudo tem um fim, e que esse fim não necessariamente é o fim de tudo, mas que é um fechamento de ciclo, mais a gente dá oportunidade para ela ser um adulto saudável.

 

4 – Como familiares e educadores, por exemplo, podem ajudar a criança a viver da melhor forma o luto?

Dando abertura para a criança falar da morte, da dor, de como foi ver, por exemplo, o seu avô no caixão, como foi ver o seu avô doente. “Você quer falar sobre isso?” O que a criança trouxer para falar, o adulto tem que dar conta. Só que o adulto não dá conta, esse é o problema. O adulto não dá conta de ver uma criança falando sobre morte. Então o que pais e educadores precisam fazer é dar abertura para a criança falar o que ela quiser. A gente tem que acolher. estar pronto para escutar. E isso vai ter vários atravessamentos: da cultura, da religião, da história de vida dessa pessoa que está falando da morte, até do tipo de morte. Hoje a gente fala de educação para a morte. Existem livros e profissionais, eu inclusive já dei palestra nesse período de pandemia para professores e escolas.

Resumindo: se for na escola, incluir temáticas como essa utilizando planta, fazendo com que eles contem a história dos seus animais de estimação que já tiveram e como foi quando partiram… É importante trazer esse tema para a escola e escutar como essa criança enfrentou essa dificuldade. Mas para isso o adulto tem que dar conta. Às vezes a criança dá mais conta que o adulto, porque ela tem mais recursos que o adulto. Quais são os recursos do adulto? É beber, sair, é a fuga. A criança vai para o brincar, e o brincar não é fuga, é uma elaboração. Claro que cada caso é um caso, eu só estou demonstrando que às vezes a forma que a criança elabora a dor é mais saudável do que a forma do adulto.

 

5 – Para cada idade da criança, existe um tipo de abordagem recomendada?

Não. Criança é criança. O que tem de diferente é a linguagem: como é que a criança se expressa em cada momento, porque conforme a criança vai crescendo, vai tendo uma visão de mundo e do que está acontecendo de uma forma um pouco mais elaborada. Eu posso ter uma criança de 5 anos com uma compreensão de mundo de 7 anos, mas não significa que aquela criança não vai precisar de suporte emocional. Mas tem que estar atento ali ao que ela está precisando. E aí eu vou ter que olhar essa criança: ela está se alimentando, dormindo e brincando como antes? É preciso conhecer a minha criança.

Mas óbvio, com a criança que já tem um vocabulário melhor para dizer o que está sentindo, provavelmente eu vou ter mais abertura para falar de forma mais aberta. Mas deixando bem claro: morte é morte. A gente precisa usar essa palavra: morreu. Dizer que viajou, que está na casa da titia, isso não é saudável, porque a criança vai esperar a pessoa retornar, só que a pessoa não vai retornar.

Então não tem uma abordagem específica para cada idade. Eu preciso compreender quais são as necessidades da minha criança, da criança que está na minha frente. E a partir dessa necessidade eu vou ofertando um desenho para falar sobre aquele assunto, ou então eu vou sentar e chorar junto com ela, não tem problema nenhum chorar junto com a criança. Ela vai perceber que “tá doendo na mamãe também”, “tá doendo no papai também”, e não tem problema nenhum. Não é para ser forte: se eu perdi alguém que eu amo muito, eu vou mostrar para criança que dói porque é amor. A mesma proporção do sofrimento é a proporção do amor, é a proporção daquilo que foi investido nesse objeto amado (seja uma pessoa, uma situação, um animal…). Deixando bem claro que luto é luto: seja pela festa, pelo ente querido, pelo animal de estimação ou pelo término do relacionamento. O que vai ter de diferente é a intensidade da dor e como isso é validado ou não pela sociedade, pelas pessoas.

Então a abordagem recomendada é: conheça a sua criança, valide o que ela está falando, acolha a dor dela, esteja com ela para vivenciar essa dor, perceba qual direcionamento ela pode dar diante daquilo: “quer visitar o seu avô no cemitério?” “Quer fazer uma homenagem?”. Porque a gente precisa ter pequenos rituais de despedida, eu preciso ter algo para me ligar no que eu perdi. Deixar aquilo que foi vivido de uma forma simbólica no meu dia a dia também é bom, como uma caneca, um objeto da pessoa, uma camisa, dormir com a camisa…

 

6 – O que não fazer diante de uma situação de luto infantil?

Fingir que nada aconteceu, ou que a pessoa morta vai voltar, ou imaginar que a criança não entende. A criança entende sim. Ela precisa passar pelos rituais de despedida, mas isso tem que ser a partir da necessidade da criança, e não da necessidade do adulto.

Mentir, abafar o sentimento da criança, fazer com que ela esqueça, isso também não pode. Isso é evitar que a criança vivencie algo imaginando que vai trazer mais sofrimento.

 

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