“Ficou algo em branco”: professora avalia alguns impactos da pandemia na educação dos seus alunos

Após mais de um ano da suspensão de aulas presenciais em virtude da pandemia da Covid-19, algumas escolas ao redor do país retomaram o ensino presencial, mas inúmeros estudantes permanecem sem poder ir à escola, sobretudo nas escolas públicas. Neste Dia Nacional da Educação, conversamos com uma professora do Ensino Infantil e Fundamental de uma comunidade ribeirinha no município de Curuçá-PA, que falou sobre os desafios enfrentados ao longo desse período para garantir uma educação de qualidade para seus alunos.

Jeorgia Patrícia de Morais trabalha há 21 anos como professora na comunidade Beira-Mar. Ela conta que no início da pandemia, as crianças ficaram sem nenhuma atividade escolar durante 5 meses, pois a comunidade é pobre e não tem tecnologia que pudesse garantir algum tipo de atividade online.

Crianças do Ensino Infantil e Fundamental nos Jogos Interescolares 2019, projeto criado pelos educadores do local que envolve 4 diferentes comunidades próximas, entre elas Beira-Mar, onde Jeorgia é professora (Foto: Acervo pessoal).

Acesse aqui o Relatório “Retratos da educação no contexto da pandemia do coronavírus. Um olhar sobre múltiplas desigualdades”, que reúne diferentes pesquisas realizadas por diversas instituições em 2020


A escola não tem computador e mesmo o sinal de telefonia é limitado. “Muitas crianças não têm acesso à internet, as casas não tem Wi-Fi, porque os pais vivem da renda do Bolsa Família, da pesca, da retirada do caranguejo, então não tem como comprar um celular mais moderno para fazer uma atividade online. Então ficou um período muito ruim, sem aula, sem atividades”, conta a professora.

Ela explica que uma das alternativas encontradas no município foi reunir os professores, tanto os da sede da cidade como os da zona rural, para montar um caderno de atividades remotas, envolvendo todas as disciplinas. O caderno era entregue aos pais, que poderiam depois tirar as dúvidas diretamente com os professores. “Foi dada essa alternativa de alguns pais irem lá conversar com os professores, sem aglomerar, por ordem de chegada. Aqueles pais que tivessem uma dúvida iam lá conversar com o professor do seu filho. Essa parte deu certo”, explica Geórgia, que comentou ainda que essas atividades não contaram como avaliação, uma vez que todos os estudantes foram aprovados, mas que agora eles estão produzindo o segundo caderno, que contará como frequência e como avaliação.

As desigualdades sociais refletidas na educação

Embora o caderno tenha se mostrado naquela conjuntura a melhor opção, logo as dificuldades apareceram. Além dos alunos não poderem tirar dúvidas pelo celular com os professores, por falta de internet, sinal de telefonia ou mesmo do aparelho, muitos pais não conseguiam ajudar seus filhos em casa por não serem alfabetizados.

Crianças do Ensino Infantil e Fundamental em evento esportivo realizado pela escola em 2019 (Foto: Acervo pessoal).

“Foi uma complicação a entrada do caderno porque na comunidade onde eu trabalho a maioria dos pais abandonaram a escola muito cedo, para trabalhar cedo, ou porque tiveram filho muito cedo, então alguns ainda são analfabetos. Então o 1º caderno não serviu de muita ajuda para os alunos porque quem ia ajudar eles era quem estava lá na casa, não era na escola”, comenta Jeorgia.

Ela explica que em alguns casos os pais só pegaram o caderno na escola, mas não devolveram com as atividades feitas pelas crianças. “Estamos no período de correção e muitos cadernos vêm com as atividades em branco, principalmente da Língua Portuguesa, que tem texto, interpretação de texto. E algumas crianças estão na fase de alfabetização e letramento”, explica.

 

Consequências para o futuro

A professora avalia com preocupação as possíveis consequências para o futuro das crianças que não tiveram uma educação de qualidade nesse período de atividades remotas. “Ficou algo em branco, vamos dizer assim, porque daqui a um tempo eles vão sentir o grande peso de não ter tido uma aula por mais de um ano, sem uma aula presencial, sem uma aula com bom rendimento”, comenta.

Outra consequência é o abandono e a evasão escolar. “Alguns já até abandonam. É a triste realidade da comunidade, porque quando não há avanço, eles acabam se desestimulando e abandonando. Esse formato de educação é precário para a comunidade onde eu trabalho”, avalia Jeorgia.

Apesar de todos os desafios, a professora espera que, com a melhora da situação da pandemia, as aulas presenciais possam retornar o mais rápido possível, para tentar minimizar os impactos negativos da suspensão das aulas. Embora muitos alunos do país tenham voltado às aulas presenciais e outros tenham tido aula online, lá ainda permanece da mesma forma. “Esperamos que essa nossa realidade mude, que eles possam ter as mesmas oportunidades que os outros têm”, conclui a professora.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *