Privacidade das crianças na internet: cuidados

Quem nunca recebeu uma foto, um vídeo, uma figurinha ou um meme de uma criança pela internet, não se divertiu com as inúmeras cenas de “fofurice” e as compartilhou nas suas redes sociais? Mas um gesto aparentemente tão inofensivo e corriqueiro pode trazer consequências inesperadas para as crianças, porque mexe com um direito básico com o qual elas ainda não sabem lidar: o direito à privacidade.

Entenda os limites para o uso de celular na infância

Em 2018, 86% das crianças e adolescentes com idade entre 9 e 17 anos eram usuários de Internet no Brasil, segundo a pesquisa TIC Kids Online. O crescente número dos pequeninos no ambiente online tem levantado muitas preocupações entre especialistas e pais, pois abre caminho para a exposição das crianças aos perigos da internet.

 

Desenvolvimento psicológico

Para a psicóloga Milene Veloso, é preciso equilibrar o uso da internet e administrar a interação das crianças com as redes sociais, pois toda situação de superexposição poderá trazer consequências para o seu desenvolvimento psicológico. “A maioria dos familiares não percebe os riscos dessa exposição, pois acreditam que a criança está segura ao seu lado ou dentro de casa e/ou no quarto. O que às vezes eles esquecem é que elas podem não apenas desenvolver dependência com esse tipo de exposição, como ficar mais vulneráveis ao desenvolvimento de transtornos alimentares, transtornos de ansiedade e depressão e outros problemas relacionados à dependência com a internet, como sofrer com a ‘popularidade’ ou não de seus posts e perfis”, explica a psicóloga.

 

É importante respeitar a opinião das crianças

A Lavínia, de 6 anos, é filha de Tábita e Bruno de Moraes. Em casa, a família opta por não assistir TV aberta e a filha assiste apenas plataforma de streaming de filmes e o YouTube Kids, uma versão do Youtube para crianças que pode ser monitorado pelos pais. Tábita de Moraes conta que em ambos a Lavínia tem o perfil já configurado pelos pais. “Paralelo ao acesso, sempre conversamos sobre comportamentos inadequados de algum possível desenho e ela sabe identificar o que pode ver sozinha e o que só pode ver em nossa companhia”, explica a mãe.

Atraída pelos canais infantis feitos por outras crianças e pais que brincam e simulam cenas cotidianas, ou mesmo desenvolvem atividades pedagógicas nos canais, Lavínia quis ter o seu próprio canal. “O pedido partiu dela. Ela queria ter um canal como aqueles, mas tudo veio com a pandemia. As muitas lives que ela nos via assistindo, o maior tempo que teve para acompanhar a programação dela, despertou nela esse desejo. Ela sempre nos pedia ‘vamos assistir uma live hoje?’ e com o tempo começou a manifestar interesse em gerar esse conteúdo, até que pediu o seu canal no Youtube”, conta Tábita.

A publicitária explica que ela e o marido demoraram um pouco avaliando o pedido da filha, mas que depois resolveram acatar. “Pensamos em acatar o pedido, mas com um propósito, uma abordagem de algo que já faz parte da nossa rotina: reunir a família e trazer os valores que nós acreditamos. Hoje não temos uma frequência de criação de conteúdo, mas gravamos o que costumamos fazer: seja uma receita, uma oração ou uma atividade manual. Enxergamos uma oportunidade de gerar em outras famílias o resgate desses momentos juntos”. Atualmente o Canal da Lalá possui 8 vídeos, e em um deles ela ensina a fazer um bolo:

Mas infelizmente essa não é a realidade de alguns perfis de crianças ou com crianças: por vezes, é mais uma vontade do pai ou da mãe, até mesmo visando o lucro ou outros tipos de ganho (materiais ou não). Para a psicóloga Milene Veloso, é importante que a vontade da criança seja respeitada em relação a essas decisões. “Tudo deve ser sempre conversado com a criança. Tem crianças que não gostam dessa exposição. Além disso, os conteúdos precisam estar adequados à sua faixa etária. Há muita exposição das crianças como consumidoras e também como objetos da propaganda. O Conselho Federal de Psicologia já tem uma posição crítica quanto ao uso da imagem das crianças para venda de produtos e serviços. Isso precisa ser respeitado”, explica a psicóloga.

 

Mas será que a internet é sempre vilã?

A resposta é não. Atualmente as crianças já nascem nesse contexto digital, e a internet tem sido uma ferramenta para troca de experiências, integração e convívio social. O distanciamento vivido na pandemia tem demonstrado que as interações via internet podem ser grandes aliadas para essa conexão comunitária.

Milene Veloso explica que, no caso das crianças, a saída está no uso supervisionado. “Uma relação saudável com as tecnologias pode incrementar o aprendizado das crianças. Até porque elas já nasceram num mundo informatizado e conectado com as redes sociais. Por isso é muito importante acompanhar e supervisionar com cuidado de sempre.”

 

O quê e quando publicar: alguns cuidados

Tábita conta que na hora de escolher o que publicar sobre sua filha, um dos cuidados é não mostrar imagens dela sem roupa ou sem camisa. “Os nossos perfis sempre foram bloqueados, então esses cuidados já são para um filtro inicial que são os nossos contatos. Somos tão cuidadosos com isso que outro dia ela comentou ‘Mãe, por que eu preciso vestir uma roupa?’ e eu respondi orientando ‘porque outras pessoas, além do papai e da mamãe, não precisam lhe ver sem roupa’. Penso que é importante mostrar o nosso zelo com ela e na medida em que for crescendo, vamos esclarecendo as dúvidas, mas sempre orientando nos cuidados”, explica.

Aplicativo permite denúncia de conteúdo impróprio nos meios de comunicação

A partir da entrevista com Milene Veloso, destacamos algumas dicas para ajudar pais e responsáveis:

1 – Respeitar a classificação indicativa das plataformas. É preciso ter 18 anos para administrar seus perfis. Nos casos de perfis infantis administrados por outros adultos, é preciso respeitar as peculiaridades de uma criança em desenvolvimento.

2 – Pais e familiares precisam ter muita cautela ao divulgar a imagem das crianças, pois existem sites de pedofilia que capturam essas informações e nós não temos como imaginar o uso disso na internet, em especial na chamada darkweb /deepweb. Evite imagens da criança sem ou com pouca roupa.

3 – Cuidado ao divulgar informações como endereço de residência e escola. Determinadas informações podem ser utilizadas para planejamento de atos criminosos como sequestros e assaltos.

4 – Previna o cyberbullying. As crianças também podem sofrer com esse tipo de violência. Ou seja, é preciso ter cuidado com o excesso de exposição da criança na internet. É preciso sempre demostrar respeito e conversar abertamente com elas e respeitar sua opinião sobre o tema. Uma imagem/vídeo da criança pode ser encantadora para os adultos, mas para a criança pode ser constrangedora.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *