Evasão Escolar: quando voltar às aulas representa um problema

Matéria: Camila Leal
Edição: Élida Cristo Miranda

 

Você já parou para pensar na quantidade de crianças e adolescentes que abandonam as escolas todos os anos? Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), um em cada quatro jovens, com idades até 19 anos, não concluiu o Ensino Médio, e 25% dos jovens pararam de frequentar a escola após os 15 anos. Em 2018 o problema da evasão continuou sendo um desafio, com mais de 912 mil crianças e adolescentes abandonando os estudos. Desse total, mais da metade (cerca de 461 mil) abandonaram no Ensino Médio, segundo o relatório da UNICEF.

 

Renda é fator determinante

Professora da Faculdade de Psicologia e do Programa de Pós-graduação em Teoria da Pesquisa e do Comportamento da UFPA, Aline Menezes fala sobre as possíveis causas da evasão escolar. “É importante compreendermos que estar na escola possui um custo elevado – não só financeiro, mas cognitivo, temporal, social, emocional – e que nem sempre o estudante ou sua família conseguem vislumbrar os benefícios do processo educacional, especialmente a curto prazo”.

De acordo com Dados da Síntese de Indicadores de 2019 do IBGE, que analisa as condições de vida da população brasileira, o abandono e atraso escolar dos jovens de 15 a 17 anos é oito vezes maior entre jovens de famílias pobres, totalizando 11,8%. Portanto, a falta de condições de se manter na escola, somada à necessidade de trabalhar para ajudar no sustento da família são questões que precisam ser consideradas. “A escola compete com outros espaços que oferecem retorno mais imediato frente a problemas emergenciais vivenciados pelo estudante, o que pode levar em muitos casos à evasão”, afirmou a professora Aline.

 

Amazônia

Os dados da Síntese de Indicadores Sociais de 2019 mostram que a evasão escolar no Brasil é maior nas regiões Norte e Nordeste, atingindo 9,2%. Na região sudeste, por exemplo, esse valor cai para 6%. Aline Menezes explica que o alto índice de evasão na Amazônia, que inclui toda a região Norte e parte do Nordeste, está atrelado a particularidades importantes da região, que são invisibilizadas pelas políticas públicas nacionais.

O infográfico abaixo mostra a taxa de escolaridade e frequência que determina, segundo o PNAD, a evasão escolar no Brasil.

“Quando um político de São Paulo elabora uma lei em Brasília, na maioria das vezes ele não pensa que parte da população atendida pertence a comunidades ribeirinhas, ou que vive em ‘ramais’ que derivam de municípios extensos, mas pobres.  Nossas escolas tornam-se, assim, menos acessíveis e menos eficientes. É preciso regionalizar alguns aspectos das políticas públicas educacionais e pensar em soluções a problemas que são nossos, valorizando nosso povo, nossa cultura mas, ainda assim, não perdendo de vista nossa inserção no contexto nacional e internacional. É um imenso desafio”, explicou ela.

 

Soluções

Para Aline, é preciso focar em dois aspectos principais para a solução do problema da evasão escolar: a valorização do professor e a construção de uma cultura de paz na comunidade escolar. “A valorização do professor não significa só salário (ainda que isso pese muito também), mas reconhecimento do seu papel, oportunidades de capacitação, condições de trabalho. Há certos aspectos burocráticos do professor da rede pública que inviabilizam ao seu trabalho alcançar todo o seu potencial”.

Quanto à cultura de paz, a professora explica que a presença de uma equipe multidisciplinar pode auxiliar os estudantes a permanecerem na escola, uma vez que o aprendizado não envolve apenas conteúdo, mas também boa convivência mútua e integração da família, entre outros fatores. “A inserção de psicólogos escolares e assistentes sociais terá muito a contribuir com esse processo de integração da família, equipe técnica, docentes e estudantes em um processo de pensar juntos e trabalharem juntos em prol da colaboração e solidariedade. Parece utópico, mas é possível e há evidências científicas disso. Mas para tal, precisamos olhar para a escola como um espaço muito maior do que o lugar onde se aprende o conteúdo programático – escola é lugar onde se aprende a ser, a conviver, a fazer, a aprender, como já diz a Unesco desde os anos 90.” finalizou ela.

Busca Ativa Escolar Mais de 3 mil municípios brasileiros participam de um esforço coletivo para mudar essa realidade. Eles fizeram adesão à Busca Ativa Escolar – iniciativa do UNICEF e parceiros para ajudar os municípios e Estados na inclusão escolar. De acordo com o UNICEF, “A estratégia colabora para a identificação de crianças e adolescentes fora da escola, seu encaminhamento para os diversos serviços públicos – como da Saúde e da Assistência Social, de acordo com os motivos de evasão e/ou abandono – e sua (re)matrícula e acompanhamento no retorno à escola”. Saiba mais.

 

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