Pesquisadora fala sobre crianças na mídia

Matéria: Camila Leal
Edição: Élida Cristo Miranda

 

Você já refletiu sobre o uso da imagem de crianças e adolescentes nos mais variados meios de comunicação? Existem regras, segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Por isso, para o Dia Internacional da Criança na Mídia, criado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) em parceria com o Conselho Internacional da Academia de Televisão, Artes e Ciências, trouxemos uma entrevista com a publicitária e pesquisadora Danuta Leão para falar sobre o assunto. 

Pesquisadora Danuta Leão

Professora da Faculdade de Estudos Avançados do Pará (FEAPA) e da Universidade da Amazônia (UNAMA), Danuta Leão atualmente está construindo sua tese de doutorado voltada para o tema consumo e crianças no Youtube. Ela já estuda os processos comunicacionais envolvendo crianças há mais de 13 anos e, nesta entrevista, aborda especificamente o uso da imagem de crianças na mídia e os cuidados envolvendo o consumo midiático por parte de crianças. Confira:

 

Você poderia citar alguns cuidados que pais, professores e outras pessoas que defendem os direitos da criança precisam ter em relação aos meios de comunicação?

Danuta: A primeira coisa é reforçar a importância do ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente]. O ECA traz um direcionamento para o profissional de comunicação. O CONANDA [Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente] também. Assim como o CONAR [Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária], para publicitários que vão trabalhar com isso. Para os pais, acho que eles precisam entender mais os direitos e deveres, ou seja, precisam conhecer também o ECA, que já tem mais de vinte anos e precisa ser lembrado sempre. É preciso ter campanhas na televisão e no rádio, reforçando os direitos das crianças e dos adolescentes. E sobre a questão da proteção, não é colocar a criança num pedestal, mas precisamos evitar que certos conteúdos cheguem até elas. E eu acredito que os pais devem fazer um monitoramento muito forte e pensar a idade na qual eles vão deixar os filhos ter acesso ao celular: será que é necessário dar um celular para uma criança de dois anos? Ok, o celular, o tablet, o computador podem nos ajudar e muito, por exemplo, nas tarefas escolares. Mas com que idade? Precisa haver um certo controle.

Eu acho que é interessante a gente pensar a nossa sociedade: ela é extremamente consumista. Então pensar um consumo mais consciente, repensar a idade certa para dar acesso ao celular, à internet para essas crianças. Fica aí um apelo para os pais: ficar mais perto, ver esses conteúdos, porque tem muito perigo, como pedofilia, violência, bullying, e a gente não tem uma regulamentação de fato.  

Quais os erros mais comuns cometidos pela mídia quando faz uso da imagem dessas crianças e adolescentes ?

Danuta: O primeiro erro é quando a mídia fala assim: “Menor assaltou estudante”. Nesse caso, os dois, na verdade, são adolescentes. Então por que o que assaltou é o menor? Então esse termo “menor” é errado, não pode usar. Teria que ser adolescente: “Adolescente cometeu um ato infracional”. Outro erro que a mídia faz muito: ela não pode expor essa criança, esse adolescente, e às vezes se coloca só uma tarja, mas a gente consegue reconhecer. Coloca tarja ou desfoca o rosto e não diz o nome da criança, mas diz onde essa criança mora, o nome do pai, nome da mãe, então são erros gravíssimos. Esse erro também vem da formação desse jornalista ou desse publicitário, que carece de uma formação mais humanizada, mais pensada na cidadania, nos direitos humanos.

 

Qual a maneira correta de utilizar ou fazer uma reportagem que tenha crianças ?

Danuta: Quando a criança está em uma situação de risco, a melhor coisa é não usar a imagem da criança, é melhor utilizar ilustrações ou outras ferramentas. Quando não, a gente precisa pedir a autorização do uso de imagem para os pais: se você vai fazer entrevista com criança tem que ter o termo de consentimento livre assinado. Numa pesquisa acadêmica, os nomes das crianças não precisam ser revelados, podem ser mudados, porque é uma questão científica. Então é sempre necessário a gente pensar no outro, entra aí a questão da empatia também. Se esses jovens estão em situação de risco, melhor não utilizar imagem, pode-se utilizar o off, mudar a fala.

Uso de imagem de acordo com o ECA

Hoje em dia como está o uso das imagens de crianças na mídia? 

A gente tem o CONANDA que, em 2014, determinou que é proibida a propaganda direcionada à criança. Então eles fizeram vários direcionamentos, o que não pode mais é aquele “eu tenho e você não tem” da época dos anos 80. Hoje o texto tem que ser direcionado para os pais. No Brasil tem um projeto de lei desde 2004 para a regulamentação da publicidade no país, mas tem indústrias, como a Maurício de Sousa, que são contra. Na minha opinião, a gente deve prezar por uma publicidade mais ética, que não seja abusiva e enganosa para a criança. Quando a gente traz isso para o Youtube, para a Internet, não temos uma regulamentação. Agora em setembro [de 2019] o Youtube bloqueou e vai retirar alguns canais de crianças, já retirou alguns comentários, e ele está certo. Quando você entra na privacidade do Youtube e das redes sociais, nenhum é para criança. Então eu me questiono: “Qual o pai que realmente está monitorando?”. A gente sabe que tem violência e pedofilia ali, monitorando o que essa criança está vendo, o que está chegando até ela. Então eu acho que tem que ter um controle maior. São várias demandas a serem analisadas.

 

Como controlar o uso das crianças ?

Danuta: Eu vejo que o pai precisa estar presente, monitorar, ter um cuidado maior com o que a criança está acessando. Eu acho que falta mais isso. Só que esse pai foi a criança dos anos 80, que era livre, então é muito difícil mudar isso. Agora, de fato, é só com campanhas e conscientização para a gente ter essa mudança, com uma proteção contra esses conteúdos que não são para crianças. Isso eu falo para uma criança que tem acesso à internet, mas a criança que não têm ainda está ali na televisão. O dono da televisão é o pai, que vai pegar o controle e assistir aqueles programas violentos, assistir novelas, não tem ainda essa educação de que aquele conteúdo não possa ser para criança.

 

Nos casos da criança produtora de conteúdo, isso se configura como trabalho infantil?

Danuta: Na minha opinião sim, para mim é muito claro que isso é trabalho infantil. É muito claro que crianças que fazem publicidade ou que fazem novela estão submetidas ao trabalho infantil. Eu concordo com outros autores que defendem essa ideia. Procura “criança negra” no Google, ele vai mostrar como resultado trabalho escravo. Mas por que essa criança que está ali, na TV ou no Youtube, não se configura como trabalho infantil? Ok, temos uma questão de artes… Mas falta muito a nossa sociedade evoluir, pensar nessas questões. Tem crianças que estou monitorando na pesquisa que tem agências por trás. Então eu enxergo de fato isso, mas quando a gente fala com qualquer pessoa, elas não enxergam, então é necessário avançar com pesquisas, pensar nesse investimento.

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*Entenda mais sobre trabalho infantil na TV, em filmes e no Youtube:

 

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