Jovens relatam suas experiências enquanto pessoas negras da periferia

Matéria: Camila Leal
Edição: Élida Cristo Miranda

E se você tivesse menos oportunidades de ter uma boa educação ou um trabalho que pagasse bem? E se você fosse alvo constante dos policiais ou fosse olhado de forma diferente e ridicularizado pelas sua aparência física? Sob o mito da democracia racial existente no Brasil, o racismo, construído por uma sociedade escravocrata, que se perpetua até os dias de hoje, fica aparente nas pesquisas estatísticas dos últimos anos.

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Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2016, os negros representam 70% da população que vive em situação de extrema pobreza e concentram maiores taxas de analfabetismo do que brancos (11% entre negros e 5% entre brancos). A desigualdade racial precisa ser combatida com políticas afirmativas, como a Lei de Cotas (12.711/2012), e a Lei 7.716 de 1989, que coloca o racismo como crime. Estas e outras políticas afirmativas foram resultado de muitas lutas do movimento negro e periférico, que continua diariamente contribuindo não só para o acesso à educação, mas também para que jovens negros tenham as mesmas oportunidades que os demais e alcancem respeito na sociedade.

Em Belém, existe o coletivo Cine Clube TF, iniciativa que funciona como ferramenta de diálogo e reflexão entre jovens periféricos e que vem mudando a realidade de jovens e adultos do bairro da Terra Firme, na cidade de Belém-PA. O Cine Clube TF é uma iniciativa de Lília Melo, professora de Língua Portuguesa e premiada como a melhor professora do Brasil em 2018 (pelo Ministério da Educação), na categoria Ensino Médio, através do projeto “Juventude negra periférica – Do extermínio ao Protagonismo”. Com os recursos do prêmio, ela comprou equipamentos de audiovisual e iniciou o projeto Cine Clube TF, dividido em 6 grupos de trabalho (arte visual, teatro, dança, canto, poesia preta e o audiovisual).

Imagem: Redes sociais do Cine Clube TF.

Consciência crítica e protagonismo mudam a realidade de jovens negros periféricos

Leidy Gomes (38) conheceu o Cine Clube TF há pouco menos de um ano, quando percebeu uma mudança no comportamento do filho, que passava muito tempo na casa de Lília Melo. Ela comenta que isso a incomodava: “Eu não entendia o fato dele só estar na casa dela. No dia que ele me levou para conhecer a professora Lília foi que eu conheci o projeto. No final do ano, eu fui ver que ele não precisou de mim para passar de ano na escola, porque antes ele era uma decadência no colégio. Eu entrei no Cine através da mudança do meu filho”.

Hoje ela é coordenadora do “Amor Preto, Minha Cria”, que faz parte do Cine Clube TF e ajuda a aproximar os pais do projeto. “São sete meses que eu tô no projeto e são sete meses que essa galerinha vem me dando a maior força. A minha perspectiva mudou, porque hoje eu dou valor na cor do meu filho que é negro. Hoje em dia eu aprendi a valorizar a cor negra. Antes para mim era normal, não tinha nada a ver, não me interessava pelo que acontecia. Mas hoje eu vejo que o galho quebra mais para o lado do povo negro, hoje em dia eu olho para isso, se eu tiver de lutar vou lutar do lado certo, pelo meu povo”, afirmou Leidy. 

Ouça o áudio-manifesto de Leidy Gomes para o Dia da Consciência Negra:

Para Jeová Santos (22), integrante do Cine Clube TF, a distinção por ser negro sempre esteve presente nas situações de racismo que enfrentou ao longo de seus 22 anos de de vida, que o fez aprender sobre si mesmo. “Uma das principais coisas que eu aprendi foi assumir meu black. Foi uma decisão muito difícil, dentro da minha família também, pois era uma coisa inaceitável, ter um cabelinho encaracolado era uma coisa feia. Para eu assumir meu negro interno eu tive que passar por várias coisas, situações de racismo, situações de homofobia misturada com racismo, tive que enfrentar muita coisa e ouvir muita besteira. Muitas pessoas me julgaram mal e até hoje julgam. Mas uma coisa que eu tenho para mim é que “o mal que tu me faz, é o bem que tu me traz”. Para eu poder assumir meu black de verdade, eu tive que tomar uma decisão em mim, tive que parar de alisar meu cabelo e deixar fluir. Escondi logo nos primórdios, que eu usava chapéu, eu não sabia o que fazer. Até que surgiram os primeiros cachos, orgulho da minha vida. E ali eu vi que esse é meu black, então não tem porque eu esconder a minha beleza negra”, afirmou o jovem. 

Imagem: Redes sociais do Cine Clube TF. Jeová Santos é um dos jovens na imagem (de calça vermelha).

Jeová vê o Cine Clube TF como um anjo da guarda com a missão de atingir a comunidade na qual vive da maneira mais positiva possível. Para ele, é uma forma de  impactar as pessoas da comunidade, ajudando a enfrentar o extermínio negro e outros também: “A gente não aborda só o tema sobre ser negro dentro da periferia e viver o extermínio por parte das pessoas do centro. A gente vive outros extermínios aqui dentro, que são casos que a gente vê frequentemente de depressão, tentativa de suicídio, automutilação. Aqui dentro a gente tem uma missão de impactar e orientaras pessoas. O projeto está aqui para dar a vida, para ajudar a viver e também a reviver e ajudar a resgatar as raízes das pessoas negras dentro das comunidades”, concluiu o jovem. 

Ouça o áudio-manifesto de Jeová Santos para o Dia da Consciência Negra:

Laura Melo (11) e Thainá Santos (07) são crianças que também fazem parte do Cine Clube TF e vêm crescendo com o projeto, se inserindo em atividades e se descobrindo mesmo ainda tão jovens. “Eu danço, faço teatro e poesia. Ele [o Cine Clube TF] me ensinou que eu sou o que eu sou”, afirmou Thainá, que é membra do GT de Teatro e Poesia Preta do projeto.

Ouça o áudio-manifesto de Thainá Santos para o Dia da Consciência Negra:

Assim como ela, Laura Melo também tem mudado sua percepção sobre a sociedade e sobre si mesma.  “Ele  me ensinou a olhar o mundo de um jeito diferente, a olhar a periferia de um jeito diferente e as pessoas negras também, porque eu era racista e hoje em dia eu reconheço isso e sinto vergonha. E eu conheci tantas pessoas boas, aprendi tanto com elas e aprendi a ser uma pessoa melhor a cada dia”, afirmou Laura.

Laura Melo é filha e Lília Melo e participa do Cine Clube TF desde sua fundação. Ela é uma das coordenadoras do grupo de Literatura Afro dentro do projeto.

Ouça o áudio-manifesto de Laura Melo para o Dia da Consciência Negra:

Diga não ao racismo
Diga não ao preconceito
Diga não ao genocídio do meu povo preto
Diga não a polícia racista
Diga não a essa militarização fascista
Diga não
Não fique só assistindo”
(Bia Ferreira)

 

Ouça o áudio-manifesto de Gabriela Mescouto, integrante do GT de Canto do Cine Clube TF:

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