Professor dedica vida a levar conhecimento para comunidades tradicionais

 Matéria: Camila Leal
Edição: Élida Cristo Miranda

 

Sou moradora de um local onde, antigamente os meus antepassados eram escravizados por gente branca. Eu fui criada pela minha avó desde os nove anos de idade. Minha avó é analfabeta. Desde pequena ela sempre quis que a gente tivesse o que ela não teve, que foi a oportunidade de estudar”. (Jessica dos Santos, 28, moradora da comunidade quilombola de Itancoãzinho). 

Esse trecho foi retirado do documentário “Trajetórias Escolares de Jovens Quilombolas”, uma produção de Márcio Nagano, mas que foi feita também por várias mãos de bolsistas do Programa Programa Conexões de Saberes, da Universidade Federal do Pará. Jesus Costa foi um dos colaboradores dessa produção e é ele o personagem da última matéria da série especial para a semana do professor. Trouxemos um pouco da sua história e do seu trabalho de levar conhecimento para as comunidades quilombolas do interior do Pará. 

Imagem: Arquivo pessoal

Jesus é marajoara, nasceu no município de Muaná. Professor de Filosofia, sempre dedicou e continua dedicando sua vida a levar conhecimento para comunidades ribeirinhas, tradicionais e quilombolas. “Em 2005 venho para a cidade e começo a estudar o Ensino Médio. Apesar de me afastar das comunidades tradicionais, ribeirinhas, permaneço trabalhando em comunidades populares, como a comunidade do Riacho Doce, no Bairro do Guamá, onde moro. Lá eu comecei a desenvolver trabalhos de catequese, trabalhos de base com jovens, crianças e adolescentes”, relata o professor. 

Já na Universidade Federal do Pará, ele explica que começou a fazer parte do Programa Conexões de Saberes, que faz o diálogo entre a universidade e comunidades populares. “Eu volto para as comunidades populares, só que agora trabalhando a questão da mediação de leitura e também a temática da juventude, por meio das oficinas da universidade para essas comunidades”. A partir daí, inicia seu envolvimento com as comunidades quilombolas. “Minha primeira experiência como professor foi no Acará, na comunidade de Santa Maria. Depois disso, em 2018, começo a atuar na comunidade quilombola Perpétuo Socorro, onde passo a trabalhar efetivamente as temáticas das comunidades quilombolas”, contou o professor.

A realidade das comunidades quilombolas é, muitas vezes, desconhecida por muitos. Segundo Jesus, a produção do vídeo, que faz parte do Programa Conexões de Saberes, é a concretização de mais um sonho e uma aposta num mundo mais justo, mais igual e mais viável para todos e todas, uma vez que ele mostra a realidade dessas comunidades para conhecimento da sociedade. 

O vídeo apresenta a narrativa da trajetória escolar de jovens das comunidades remanescentes de quilombos Santa Quitéria e Itancoãzinho, no Baixo Acará, até à Universidade. “Trata-se de uma significativa contribuição à compreensão das políticas públicas de ações afirmativas, à luta e resistência dos jovens quilombolas. Faz com que essas narrativas ultrapassem os rios que separam a comunidade de outras localidades e dão visibilidade à luta diária que esses jovens enfrentam para garantir seu direito à educação e a manter sua identidade viva”, explica o professor.


Documentário “Trajetórias Escolares de Jovens Quilombolas”

 

Jesus conta que a falta de valorização das culturas e tradições dessas comunidades sempre foi uma inquietação sua, e isto se aliou ao fato dele ter cursado especialização em Questões Étnico-raciais no Ensino Fundamental e à produção do documentário. Segundo ele, o produto se torna uma forma de auto-reconhecimento desses jovens: “Se você olhar os livros didáticos, ainda são livros voltados para uma educação urbana, não valoriza  as tradições, as questões dos povos. Então comecei a me inquietar com isso e motivar os colegas a valorizar e colocar efetivamente no currículo da escola”.

O vídeo torna-se uma referência para esses alunos, pois muitos conhecem esses personagens, onde moram e o que fazem. “Nós trabalhamos esse vídeo em sala de aula como instrumento pedagógico, trabalhando temas. Por conhecerem esses personagens, eles se reconhecem no vídeo e isso é muito importante, porque eles se auto-reconhecem como sujeitos daquele espaço”, afirmou. 

Imagem: vídeo documentário “Trajetórias Escolares de Jovens Quilombolas”

O objetivo do documentário é dar visibilidade a esses estudantes quilombolas, suas trajetórias escolares até a universidade marcadas por um processo de exclusão social muito forte. “Você vê o descaso com a educação, todos os processos que eles passam para chegar à universidade”, explica Jesus.

 

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