Professora promove protagonismo juvenil na periferia de Belém

Ela já é reconhecida nacionalmente pelo trabalho realizado como professora no Bairro da Terra Firme, periferia de Belém-PA. Na segunda matéria da série de histórias inspiradoras de professores, vamos compartilhar um pouco da experiência de Lília Melo, professora de Língua Portuguesa e premiada como a melhor professora do Brasil em 2018 (pelo Ministério da Educação), na categoria Ensino Médio. 

Lília Melo durante a premiação de Melhor Professora do Brasil (Ensino Médio), em 2018 (Foto: Acervo pessoal).

Inquietações

O projeto que leva Lília a receber o primeiro lugar no Prêmio Professores do Brasil é o “Juventude negra periférica – Do extermínio ao Protagonismo”, que surge a partir de uma inquietação da professora com dois episódios de extermínio no bairro da Terra Firme, o primeiro deles em 2014. Mas ela relata que seu engajamento em causas sociais começa muito antes de ser professora. Desde a sua infância, quando acompanhava seu pai no trabalho de flanelinha em ruas consideradas nobres em Belém, ela se incomoda com a desigualdade social. “E talvez esse incômodo venha a partir das oportunidades que tive de ler o mundo de diferentes perspectivas e situada em contextos complexos”, relata.

Lília Melo com integrante do Cine Clube TF (Foto: Acervo pessoal).

Já como professora do Ensino Médio e Fundamental, mas numa escola particular e famosa da capital paraense, ela se depara com uma situação que a leva a implementar um projeto de conscientização social. “Eu via crianças estragando lanches, lanches bons e caros, e aquilo me incomodou muito porque eu tive pais que passaram muita fome. E aí eu criei um projeto de choque de realidades, eu confrontei crianças da mesma faixa etária, mas de contextos diferentes. Eu levei cerca de 50 crianças para o lixão do Aurá para ver de perto as crianças catadoras de lixo, que procuravam em meio ao lixo um pedaço de comida”.

O projeto, que gerou polêmica porque alguns pais e mães de alunos consideraram uma atitude cruel para os filhos deles, recebeu apoio da comunidade escolar e de muitos outros pais e alunos. Com o apoio, Lília permaneceu no colégio e ampliou o seu projeto. “Não só fiquei, mas também o projeto virou um projeto piloto e no ano seguinte se estendeu para outras séries. E eu consegui levar no ano seguinte mais de 80 alunos para São Caetano de Odivelas para conhecerem a manifestação cultural do boizinho de máscara”, relata. 

 

Potencializar o protagonismo da juventude negra periférica 

De acordo com Lília, a proposta do “Juventude negra periférica – Do extermínio ao Protagonismo” é desconstruir a ideia de que a juventude da periferia é apenas alvo do crime. “Nós temos a limitação e a visão preconceituosa, que é propagada pela mídia tradicional, de que a juventude negra periférica é meramente alvo de extermínio. Eu, após viver duas grandes chacinas no bairro da Terra Firme, percebi e entendi que é necessário a sociedade como um todo reconhecer e divulgar a riqueza e a potência artística da juventude de bairros periféricos”.

Sessão de cinema do Cine Clube TF realizado na garagem da professora (Foto: Cine Clube TF).

Segundo a professora, o projeto tende a ser um instrumento de reverberação dessas múltiplas vozes e dessa potência criativa que existem na periferia. “Então o projeto nada mais é o que a articulação dos saberes e das produções culturais dos coletivos culturais que tem no bairro [da Terra Firme], com a produção de alunos de escola pública que é a [Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio] Brigadeiro Fontenelle. 

E os resultados dessa troca chegam. Seja numa adolescente preta que deixa de alisar o seu cabelo por reconhecer a beleza da sua identidade negra, seja na ocupação criativa de lugares tido como “proibidos” no bairro: “Dentro desses espaços desvalorizados, nós combinávamos nossas ações colaborativamente. Então a gente passava filme, fazia uma oficina de grafite e deixava um painel na comunidade, a gente cantava, a gente tocava tambor, recitava poesia, fazia um monte de coisa interessante”, relembra Lília.

 

Cine Clube TF: narrar identidades negra, indígena e ribeirinha

Com os recursos do prêmio de melhor professora do Brasil, Lília dá novos contornos ao projeto anterior, e a partir da compra de equipamentos de audiovisual surge o Cine Clube TF. Dividido em 6 grupos de trabalho (arte visual, teatro, dança, canto, poesia preta e o audiovisual), o projeto busca construir novas narrativas sobre a periferia, produzidas pelos próprios jovens, e disponibilizar essas narrativas na internet (hoje eles possuem canal no Youtube, além de página no Facebook e perfil no Instagram). 

Integrantes do projeto Cine Clube TF, durante gravação de reportagem especial para a Rede Globo (Foto: Acervo pessoal).

“Nossos meninos e meninas que antes estavam em cantos estratégicos do bairro recitando poesia e fazendo grafite, agora também são acompanhados por um grupo que transforma isso num clipe, num documentário, num curta-metragem”. E as produções vão sendo cada vez mais reconhecidas pelas famílias desses jovens, pelos próprios jovens e pela sociedade. “A última obra deles, o curta ‘Perspectivas’, foi lançado no Teatro Maria Sylvia Nunes num festival internacional de cinema, que nos oportunizou participar do festival no Rio de Janeiro agora em novembro. Uma obra escrita por meninos e meninas na faixa etária de 14 a 20 anos”, relata a professora. 

 

Educar para que os jovens sejam os narradores de suas próprias histórias

A iniciativa da professora Lília Melo rompe com um ensino tradicional, pautado em narrativas produzidas por “estrangeiros”, que reproduz um olhar de fora, para garantir uma educação contra-hegemônica, nas palavras da professora.

“A importância desse projeto dentro das escolas públicas é repensar as metodologias e as concepções de ensino, de educação, de linguagem que estão sendo inseridas dentro das escolas que têm um público múltiplo, diverso, rico de histórias, e que a gente precisa ouvir essas histórias e transformá-las em instrumento de reverberação”. 

 

Confira as outras matérias especiais para a semana do professor:

Professor dedica vida a levar conhecimento para comunidades tradicionais

Professor implementa modelo de ensino/aprendizado colaborativo no interior do Pará

Professores fazem a diferença na vida de crianças e jovens através da educação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *