Jovens paraenses falam sobre os desafios de ser criança e adolescente na Amazônia

Matéria: Camila Leal
Edição: Élida Cristo Miranda

Estamos sempre falando sobre garantia de direitos para crianças e adolescentes e muitas vezes nos esquecemos de escutá-los. Nos passa despercebido que dentro de corpos jovens e pequenos, existem mentes brilhantes cheias de ideias e contribuições para dar. Nessa semana do Dia das Crianças, a gente traz essa matéria com jovens de diferentes municípios do nosso estado, para falar sobre protagonismo e outras pautas de nossas crianças e adolescentes. As entrevistas foram realizadas durante a 10ª Conferência Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente no Pará, em setembro de 2019.

Entre as pautas indicadas pelos nossos pequenos entrevistados, estão: a precarização das escolas e do ensino, exploração sexual infantil, falta de acesso à internet, dentre outros. Confira:  

Monique Araújo (10 anos), de Abaetetuba – “O que falta é compromisso com as obras escolares. Tem uma escola chamada Basílio, o governo deu dinheiro para a reforma, que começou em maio e ainda não está pronta. E outra coisa que falta é mãe e pai prestar atenção em seus filhos, porque tem aluno que só vai para a escola forçado, porque o aluno que não falta, os pais recebem Bolsa Família. Acho que eles não se importam se a criança está aprendendo ou não, tem aluno no meu ano que repetiu quatro vezes, porque os pais só se importam com o bem material, não se importam com os filhos”, afirmou.

Monique Araújo

Isis Werneck (12 anos), de Medicilândia – “Falta melhorar as escolas em si, além de ser um lugar muito desgastante. As salas são sujas demais, desgastadas, carteiras riscadas. Os alunos se iludem com um planejamento feito e não tem nada do que foi proposto e o adolescente não tem espaço para debater. O que mais necessita é a participação dos adolescentes do município e incentivo. E mais espaços e momentos com o adolescente.

Isis Werneck

Gabrielly Sousa (12 anos), de Brasil Novo – “Nós sabemos que a maioria dos adolescentes possui acesso à internet, certo? Mas tem os ribeirinhos, quilombolas que não tem esse acesso. Nós queríamos trazer mais materiais de interesse, como revistinhas simples que mostrem os direitos (das crianças e adolescentes), mas que eu sinta interesse em ler. Por exemplo, se me dão uma revistinha com um monte de direitos, eu não vou querer ler porque eu vou achar chato, é preciso trazer um material mais lúdico, mais interessante, colorido como história em quadrinhos. É uma forma dessas pessoas que não tem internet poderem acessar esse conteúdo”.

Gabrielly Sousa

Pietro Samuel Santos (11 anos), de Igarapé-Açu – “Falta tecnologia em Igarapé-açu, as escolas públicas não têm computadores. Poucas escolas possuem. Na minha escola, além de mim, poucas crianças sabem mexer. Então o que eu aprendo eu compartilho com as crianças da minha escola.”  

Pietro Samuel Santos

João Lucas da Costa (20 anos), de Belém –  “A gente mora num estado que é rota do tráfico de crianças, e aí a gente tem no Marajó essa questão que explode todos os dias, que já teve repercussão nacional com a fala da ministra [Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos], que fez com que o debate sobre exploração sexual infantil voltasse a repercutir, o que é uma pena porque isso acontece todo dia e só agora as pessoas começaram a olhar”.

João Lucas da Costa

João Gabriel Farias (18), de Belém – “A educação é precarizada. A gente vê hoje uma estrutura social e política de desmontes de direitos e a educação sofre muito, porque além de sofrer precariedades físicas, sofre também no sistema de ensino. Cada vez mais professores com falas mecanizadas, ‘pensamentos críticos’ precários. A escola, que precisa ajudar a criança a desenvolver esse pensamento crítico, político, já não está desenvolvendo seu trabalho, assim como os espaços de lazer dentro das escolas, de cultura, que não tem.”.

 

Protagonismo Juvenil 

Um dos destaque nas falas dos nossos entrevistados é a importância do protagonismo de crianças e adolescentes nos assuntos que os envolvem.

João Gabriel (18) participa do Movimento de Emaús há três anos e conta que já se questionava sobre a posição da criança e do adolescente na sociedade, mas ao entrar no Emaús pôde se engajar nessas questões e hoje trabalha o protagonismo juvenil com outras crianças e adolescentes na instituição. “A gente desenvolve esse trabalho de se questionar, indagar e se aceitar como cidadão jovem, questionar seu meio e atuação nos espaços. Fazemos perguntas que desenvolvem o pensamento crítico sobre sua realidade, direitos e deveres. Acho que tudo começa quando o adolescente ou a criança consegue ver qual a sua realidade dentro do meio político, social. A partir das escolas, por exemplo, a gente vê que são muito sucateadas, então a gente começa a analisar o espaço que a gente tá inserido e tende a questionar: por que é assim? Como deveria ser? O que pode ser feito para ser mudado?”.

João Gabriel Farias

De acordo com Monique Araújo (10), ter mais espaços de discussão para os jovens se posicionarem são fundamentais para o aprendizado: “O que mais me interessa é que a conferência tá falando que a criança tem que ter vez e voz, e aqui eles me ensinaram que eu tenho que lutar pelos meus direitos e se o presidente quer cortar as bolsas de estudos, eu vou continuar lutando, pois é o meu direito de eu ter uma educação de qualidade”.

Para Isis Werneck (12) e João Lucas (20), a opinião da criança e do adolescente ainda é mal colocada e eles possuem poucos espaços de debate. João Lucas chama atenção para a especificidade da nossa região, cujo acesso à informação ainda é difícil: “A gente tem projetos sociais, mas eles não abraçam toda a população. Isso deveria ser uma política de governo, o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) era para ser discutido dentro das escolas. Os projetos fazem o trabalho, mas que é muito pequeno comparado à população que a gente tem aqui, não só na capital, mas nos interiores principalmente, onde o acesso à informação é pior. Acho que a gente tem uma geração de jovens, principalmente por conta das redes sociais, que estão abrindo seus olhos para essas questões, mas que ainda não é suficiente, porque apesar dos benefícios das redes sociais, existem as fake news. Então temos que saber filtrar”, afirmou. João Lucas atua pelos direitos da criança e do adolescente desde criança, quando começou na Pastoral do Menor, e hoje é conselheiro estadual dos direitos da criança e do adolescente.

Segundo Monique, deveria haver incentivo do governo: “O governo poderia ajudar colocando nas escolas esses tipos de deveres para discutir entre crianças e adolescentes. Porque cada um quer saber o que é abuso, seu direito, dever, o que pode, o que não pode, porque querem saber seus direitos”, afirmou.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *