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Comissões da verdade investigarão agressões a crianças

As comissões da verdade nacional e de São Paulo marcaram para o fim de março a realização de uma audiência pública para tratar dos casos de crianças que foram presas com os pais durante a ditadura militar ou nasceram nos porões do regime. A decisão de marcar a audiência foi acelerada em função da morte no último fim de semana de Carlos Alexandre Azevedo, filho de dois militantes da resistência à ditadura, Darcy Andozia e Dermi Azevedo. Ele foi preso e agredido por militares quando tinha apenas 1 ano e 8 meses. A reunião conjunta acontecerá em São Paulo e tem a intenção de reunir histórias de outras crianças que também sofreram consequências da repressão, além de buscar informações mais detalhadas sobre as circunstâncias em que as violências ocorreram.

Ontem, Paulo Sérgio Pinheiro realizou a primeira reunião com a equipe como coordenador da Comissão Nacional da Verdade. Pinheiro, que é também coordenador da Comissão Especial da ONU para a Síria, substitui Claudio Fonteles, que exerceu o cargo por três meses e tirou 15 dias de férias.

A Comissão Nacional divulgou nota de pesar sobre a morte de Carlos Alexandre, lembrando que ele nunca se recuperou dos traumas que viveu. “Sofrimentos como esses revelam a dor, ainda silenciada, de diversas famílias que foram vítimas das violências cometidas pelo governo ditatorial militar”, escreveram os membros da comissão, que pretendem incluir as informações sobre crianças e a ditadura no grupo de trabalho que discutirá a violência contra a mulher durante o regime.

— Respeitamos o luto da família, mas a intenção é convidá-los para esta audiência. Íamos fazer mais para frente, mas vamos antecipar por causa do que aconteceu. Adultos que foram presos e torturados sabiam do risco que corriam ao escolher a luta armada, as crianças não sabiam o que estava acontecendo — diz o coordenador dos técnicos da Comissão da Verdade de São Paulo, Ivan Seixas.

Carlos Alexandre se matou no fim de semana com overdose de medicamentos, aos 40 anos. Seus problemas psicológicos foram diagnosticados na infância e, segundo o pai, ele nunca se recuperou dos crimes sofridos durante a ditadura, tanto por ele quanto pela família.

Amanhã a família do desaparecido político Fernando Santa Cruz lança em São Paulo o livro “Onde está meu filho?”, com uma série de artigos sobre a história do rapaz, preso em 1974, e a luta de sua mãe, Elzita Santa Cruz, que ainda busca uma resposta para a pergunta que dá título ao livro. Aos 98 anos de idade, ela não aceita que mudem o número de telefone de sua casa, na esperança de receber informações sobre o filho.

Fonte: O Globo.

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