Estratégias para o enfrentamento da desnutrição no Brasil

O Ministério da Saúde lançou, no final do mês de abril, estratégia que reestrutura a política de alimentação para crianças de até dois anos de idade, a partir da integração entre a Rede Amamenta Brasil e a Estratégia Nacional de Promoção de Alimentação Complementar Saudável – ENPACS. O objetivo é valorizar a formação de recursos humanos para a Atenção Básica por meio da formação de tutores responsáveis por apoiar ações de promoção do aleitamento materno e da alimentação complementar nas Unidades Básicas de Saúde.

Gisela Solymos, psicóloga e diretora do Centro de Recuperação e Educação Nutricional – CREN, lembra que o Brasil caminhou muito nos últimos 20 anos no que diz respeito ao aleitamento materno, embora ainda haja muito por fazer. Para ela, os aspectos mais importantes da nova estratégia federal são a capacitação e a integração entre aleitamento materno e alimentação complementar. “A introdução da alimentação complementar é um momento de grande risco para a vida nutricional das crianças. Em geral, não é feita a introdução adequada”, explica.

Segundo a diretora do CREN, é nesse momento que são criados os hábitos alimentares que, se inadequados, poderão levar a criança à desnutrição ou à obesidade. A apresentação de novos sabores para a criança, que até então apenas conhecia o leite materno, precisa ser feita de forma correta. “Se a gente não faz adequadamente, dá um determinado sabor para a criança e ela vai fazer careta. Mas ela vai fazer careta para quase qualquer coisa, porque ela não conhece nada. E as mães dizem: ‘ah, ele não gostou; ele só gosta com açúcar; ele só come se tem leite’. Assim, a gente começa a gerar uma criança desnutrida ou subnutrida ou obesa e inicia graves problemas de hábitos alimentares inadequados”, explica a psicóloga.

Gisela destaca que, durante essa fase, é desenvolvida a capacidade de reconhecer sabores e que os primeiros seis anos de vida são fundamentais para a criação dos hábitos alimentares. “É quando o nosso paladar entende o que é amargo, azedo, salgado, doce; que todos os tipos de sabores são bons e não tem um sabor melhor. Por que o doce é melhor que o amargo, quem decretou isso? É porque a gente é educado assim”. De acordo com Gisela, a apresentação dos alimentos de forma adequada poderia prevenir problemas de hábitos alimentares reduzidos.

Perfis da desnutrição

Para a diretora do CREN é preciso entender que existem diferentes critérios para se identificar a desnutrição infantil. “Alguns países, dependendo das condições, escolhem certos critérios. Podemos classificar desnutrição segundo peso para idade, estatura para idade ou peso para estatura. A desnutrição no Brasil é muito mais relacionada à estatura para idade”, explica. Situações como guerras ou fome permanente podem gerar diferentes quadros de desnutrição, que determinam os critérios de medição que serão utilizados. No caso do Brasil, o indicador baixa estatura em relação à idade é o que melhor caracteriza a desnutrição causada pela pouca oferta de nutrientes, baixa escolaridade dos pais e baixa renda.

Até os anos 1990, porém, o indicador peso para idade era o utilizado pelo governo brasileiro. “A literatura dizia que se a criança tinha sido desnutrida, não adiantava querer recuperar a estatura porque ela não cresceria mais. Havia essa cultura no meio científico. Para a nossa experiência, isso não nos satisfazia”, conta Gisela.

No CREN, criado na década de 1990, os critérios utilizados já eram o peso em relação à idade, a estatura em relação à idade e o peso em relação à estatura. A partir do tratamento realizado pelo CREN em regime de hospital-dia – frequência diária de crianças entre zero e seis anos com cinco refeições e acompanhamento médico, nutricional, psicossocial e educacional –, verificou-se que a estatura poderia ser recuperada e os efeitos da desnutrição que apareceriam durante a adolescência ou idade adulta poderiam ser revertidos.

Para a diretora do CREN, o que melhor retrata a desnutrição no Brasil é o fato de que o país é desigual. “O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. Não podemos usar uma média nacional e dizer que essa é a realidade do País”, afirmou. Segundo Gisela, tal fato é observado ao dividirmos a desnutrição por região: na região Norte, o índice de desnutrição é três vezes maior do que no Sudeste. “Mas isso fica ainda mais gritante quando você verifica esses valores focando as regiões de exclusão, as comunidades com alta concentração de pobreza”, alerta.

Entre as famílias com menor poder aquisitivo no Brasil, morando nas áreas mais desfavorecidas, como as áreas de favela ou as áreas rurais das regiões Norte e Nordeste, o percentual de crianças com desnutrição em relação de altura para idade chega a números entre 20% e 25%. “Isso é um número alto e está associado à desigualdade de oportunidade para a nossa população, que diz respeito à falta de acesso à saúde, à educação, ao trabalho e tudo o que envolve a situação de pobreza”, afirma a psicóloga.

De acordo com Gisela, os números da desnutrição no Brasil, assim como os da mortalidade infantil, têm diminuído sistematicamente. “A primeira grande razão para a queda na mortalidade infantil foi o saneamento básico. A desnutrição primária é uma combinação de dois elementos: alimentação inadequada e exposição a infecções. Então, se você não se alimenta bem, você se infecta, e se você se infecta, não se alimenta bem. É um ciclo vicioso que, digamos, fica se retroalimentando: as infecções oportunistas e uma alimentação que não corresponde às necessidades daquela criança”, explica a diretora.

Fonte: Via Blog

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