Tem criança na platéia?

Passaram-se quase três décadas (!!!) desde os tempos em que Raul Seixas fazia críticas a censura do regime militar – mesmo que na época, enquanto crianças, não entendêssemos nadinha – cantando “Carimbador Maluco”, que ficou mais conhecida por nós pelo refrão ‘Plunct Plact Zuuum! Não vai a lugar nenhum!’

Já as crianças do Balão Mágico cantavam “Superfantástico”, “Tem gato na tumba”, “Amigos do peito”, “Lindo balão azul”, “Se enamora”, “Ursinho Pimpão” e outras músicas cantadas por crianças, para crianças. Tinha também o Trem da Alegria, uma turma mais “descolada”, mesmo assim ainda era música infantil, do tempo em que meninos e meninas de 12 anos ainda brincavam de pique esconde e de boneca, sabe?

Bom, depois da boquinha da garrafa começou o nebuloso inverno, que de tão longo pareceu irreversível, com efeitos que surtem até hoje através dos hits de axé, funk carioca e outros ritmos que promovem a erotização infantil. Se não há opções de músicas para o público infantil, eles vão imitar os adultos, e a mídia vai lucrar com isso.

Entrando no quesito erotização infantil, não posso deixar de citar os queridos daRádio Margarida, que trabalham há 20 anos defendendo os direitos das crianças e dos adolescentes na Amazônia, e com os quais tive a alegria de trabalhar. Entre outras atividades, a ONG produz material audiovisual educativo (músicas, vídeos, spots, radionovelas, etc). Um deles é o CD 10 Anos de Alegria, que comemorou uma década da instituição com canções gravadas por artistas paraenses como Lia Sophia, Buscapé Blues e Renato Torres. Minha faixa preferida é a Capitão Gotão, um rock anos 50 pela vacinação infantil.

Voltando à nossa retrospectiva, eis que em meados dos anos 90 começam a surgir projetos como esses maravilhosos tropicalistas dos pequenos, o grupo Palavra Cantada, liderado por Sandra Peres e Paulo Tatit (irmão do genial compositor paulista Luiz Tatit). Nas letras do Palavra Cantada, Paulo e Sandra aliam de forma encantadora a vêia Tatit da poesia concreta à simplicidade da linguagem infantil.

Foi nos anos 2000 que a atual música infantil tomou mais fôlego com projetos como Adriana Partimpim, com dois volumes lançados, Pequeno Cidadão (de Arnaldo Antunes e Edgard Scandurra) e Música de Brinquedo (do Pato Fu). É que essa geração cresceu vendo as boquinhas da garrafa e não quis isso pros filhos deles.

Moral da história: criança não é boba! A menos que seus pais sejam, daí elas vão imita-los. Afinal, filho de bobo, bobinho é.

Fonte: woRd in my eyes

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