História

O Grande Encontro

Com o farol baixo e pára-choque duro, o velho ônibus amarelo estava esquecido dentro da antiga República do Pequeno Vendedor, no bairro da Cremação. Até ser encontrado, em maio de 1991, pelo Assistente Social, Osmar Pancera. Desde aquele momento, depois de uma breve piscada de faróis, o abandonado veículo teria um rumo diferente, era nele que surgiria, dois meses depois, o projeto Rádio Margarida.

Assistente Social e fundador da ONG, o professor Dr. Osmar Pancera, chegou à Belém, em 1º de maio de 1983, e logo ficou encantado com a riqueza cultural de nosso Estado. Paulista, Osmar escolheu a cidade de Belém para morar e, há tempos, desejava ampliar a sua atuação na área cultural, querendo ir além da pesquisa acadêmica. Seu grande desejo era levar, a comunidades que não tinham nenhum acesso a educação e cultura, diversas manifestações artísticas, como a música, o teatro e o cinema, que se concentravam, apenas, no centro da cidade.

No momento em que encontrou o ônibus, Osmar descobriu como poderia realizar esse sonho! Foi amor ao primeiro olhar, de um lado, os faróis tristes do veículo parado há cerca de dois anos – mas que já enxergavam uma luz no final do túnel – e do outro, olhos brilhantes que viam no ônibus uma maneira de ir até onde o povo estava, levando arte, educação, saúde, intercâmbio cultural, alegria, música, comunicação participativa, direitos humanos e cidadania. Após dois meses de restauro, em 20 de julho de 1991, o ônibus, batizado de Rádio Margarida: “Rádio = irradiação da arte, educação e cultura + Margarida = singela homenagem a mãe do idealizador”, teve sua primeira aparição pública.

A missão desse dia era chegar até a ilha de Mosqueiro para realizar, a convite da Prefeitura de Belém, o evento intitulado Rádio de Ilha. Com arte-educadores, locutores, jornalistas, poetas, palhaços, bonecos de manipulação, fonte sonora com oito projetores de som e um toca- fitas com microfones, o ônibus saiu rumo à ilha de Mosqueiro, veiculando informações educativas, spots pré-gravados e músicas soltas no ar. Na janela do ônibus, as apresentações de teatro de bonecos e as duas bandeiras, uma azul e a outra amarela, proporcionavam encantamento, admiração e alegria, aos motoristas, pedestres, banhistas e moradores da ilha.

Assim, a primeira missão da Rádio Margarida estava cumprida! E, de lá pra cá, as atividades não pararam mais. A Rádio foi à ilha, e daí para o mundo, ganhando reconhecimento nacional e internacional. Passado mais de um ano da primeira apresentação, os amigos e outras pessoas de bem com a vida se reuniram para, em 18 de novembro de 1992, criar a organização não governamental, denominada de Centro Artístico Cultural Belém Amazônia. A entidade surgiu a partir dos princípios, finalidades, objetivos e atividades desenvolvidas.

Mondrongo: O ônibus esquecido

Uma entidade religiosa da Alemanha, chamada Igreja em Dificuldade (Kirch Inot), ajudava associações religiosas de vários países. Em 1972, ela conseguiu, do exército suíço, uma frota de caminhões e três ônibus, que estavam parados desde o término da Segunda Guerra Mundial, e os enviou a igrejas na Amazônia. Entre os ônibus, estava o Mondrongo, antigo apelido, dentre muitos, do veículo comprado por Osmar Pancera. O ônibus pertencia à República do Pequeno Vendedor e, antes de ficar inativo, serviu, durante anos, de meio de transporte a muitos meninos e meninas em situação de rua. Nele, as crianças e adolescentes eram levados para almoçar e, também, para momentos de alegria, como passeios nas ilhas de Mosqueiro e Outeiro.

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